Estorvo

passou por mim.
estabanado, esbarrou no meu céu
derrubando estrelas.

Cynthia Lopes

LIRISMO

Ando assim sendo
Desenhos inacabados
Magias em tardes amarelinhas
Pedaços de elegia
Frescor das manhãs
Tardes acinzentadas (mas só para alguns)
Absoluta redenção
A unidade das estrelas
Sonhos...e um pesadelo
O colorido da fantasia

O pão e o queijo também.
O giro da canção
O vazio da solidão
As gotas de chuva
A crença contida
Um poema inatingível.

Amne

Antídoto

Por onde anda a cor das rosas?
Em quais céus se perderam as borboletas?
Cegaram-se com o passar do tempo as estrelas?
E o louva-deus? Em qual jardim ele adormece?
A resposta não se sabe...
Quem sabe seguiram viagem?
Ou cansaram do olhar alheio;
Ou terá sido eu
Que após provado o veneno
Matei a cor, o brilho e o cheiro?

Pam Orbacam

Sem Título

olho agora
passivamente
a cidade abarrotada
de sons e gentes
como se me apartasse
dos martírios e gozos
como se alheia
cultivasse pérolas
e lentamente
digerisse
mínimos movimentos
sem ontem
nem amanhã

Ana Maria Costa

Confins

Manto dourado
a agasalhar meu corpo,
alimentando-o com energia
vinda do infinito,
em viagem sideral
armazenada na caldeira
que os ímpios chamam de
Estrelas!

João Weber Griebeler

QUANDO ME AUSENTAR

Quando me ausentar direi os nomes
de todas as essências, as cores inscritas
ao longo da estrada imóvel. Indulgente,
irei desenhando as formas do repouso,
o ouro e a prata do pôr do sol morrendo
sobre as árvores da montanha alta,
um redemoinho de pura água refazendo
em água o limbo deslizante do rio.

E gritarei a minha infinita gratidão
pela geometria das distâncias vãs
que alentaram o meu sangue para o vazio
que enche de ar, o ar que respiramos.

Vieira Calado

Busca

Nas mãos, o gosto de tua boca.
Braços e pernas cortam meu caminho.
Cobiço o lugar em que te encontras.
Em que paragem está,
Se não aqui comigo?
Teu ninho é feito dos fios de meus cabelos
E tua morada, minha imensidão.
Nessa busca incessante,
Quimeras me dispersam e, ao mesmo tempo,
Constituem-me.

Fernanda Passos

( De longe, vejo... )

De longe, vejo
teus olhos em meio
a neve
Logo sedas avermelhadas
soltam-se
como se fossem
plumas...
Caem, sangram

respingam na
menina o tempo
que não volta mais.

Viviane Marconato

Compilação

Repara no tempo
que produz estranhas
cicatrizes no verso

instantâneos
estáticos
sem retoques

paisagem partida
teimando resistir
ao espanto da vida

Assis Freitas

desconheça-me...

desconheça-me, amor imenso
pois meu céu esqueceu o azul
nas primeiras rachaduras do pôr-do-sol
e eu tenho a alma
DESESPERADAMENTE
carcomida por cores mortas.

Douglas D

Dúvida

Queria
poder
entender.
Saber
o porquê
da sensação
que vai...
que volta...
que fica
não sai;
que faz
do pensamento
tormento
fomento
de guerra
interior
entre dois
contendores
senhores
da forte
da fraca
indecisa
rasão.

Rita Bernadete Sampaio Velosa

Incapacidade

Só amasso as palavras nos dentes,
sinto-lhes os cristais,
dilacerados,
que não consigo engolir
e as devolvo ao vento,
são secas,
sem minha substância,
sem minha saliva,
esqueletos de ossos frágeis,
não lhes doei meu sangue,
filigranas que são
do vero ouro
que deve haver nos veios,
nos ocos,
onde não ouso escavar.

Dora Vilela

Último acorde do violino solitário

nada sei sobre a vidinha
do pernilongo
que mato indiferente
na parede.
mas desconfio que era a única
que ele tinha.

Ulisses Tavares

tem os que passam...

tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados

tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido

e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado.

Alice Ruiz

da ausência enquanto calma

a cor e o perfume
das pétalas

de todas as rosas
dos ventos

nas mãos de resto
vazias

Márcia Maia

Aviso

Mantenha-se longe de mim.
De meu rosto, meus olhos e cabelos,
de todos os meus destemperos.
Fuja para mais além.
Sou cortante, áspera, desregulada,
insidiosa como as ervas do jardim.
Afaste-se, encubra o seu sorriso,
dê-me as costas antes do final.
Posso arranhar o verniz que o reveste,
manchar de vermelho seus instantes sem cor.
E arrastá-lo, quase morto, por meus abismos particulares
onde somente florescem
palavras.

Zingarah

me amanhece ...

me amanhece na
pele e memória
teu toque. pousa ali
cotidiano

(ave escrita no céu)

cotidiano
me assombra na
memória o teu
toque. pousou ali

(ave rabisco em mim)

e permaneceu.
me conforta a
pele e memória
teu toque e teu rosto

(ave pousada em mim)

Eiichi

Wanted for nothing...

Procura-se verso
vivo ou morto.

Foi visto pela
última vez
a roubar palavras
da minha boca.

Dizem as más
línguas que o verso
fugiu com a rima
levou a estrofe
e ainda por cima
deixou o poema na mão

sem pé nem cabeça.

Clauky Saba

dos desatinos

a minha
é emoção desgovernada
que atropela a razão
em plena madrugada de criação.

o meu
é poema desastrado
que ganha as ruas,
se acovarda diante de ti
e não diz nada.

Ademir Antonio Bacca

Súplica

tenho dois olhos
[mudos]
que se recusam
a ver o óbvio

uma boca
[cega]
que se nega
a dizer adeus

um coração
que pensa
uma cabeça
que pulsa

e estas mãos
[descalças]
ajoelhadas
a teus pés

Valéria Tarelho

Ótica

De tão clara
A luz se fez Poesia
E as trevas
Intervalo dos meus olhos
Desenharam o Poema
Para que a vida
Tivesse filhos
E em mim
Os versos que gritam
Não fossem órfãos.

Eliane Alcântara

Pecado

Primeiro
ele se achegou
com uma flor na mão

depois
mexeu na casa
cortou meus cabelos
fez nossa comida

e então
tomou meu ventre
e cometemos o pecado
de amar
sem amor

Edinara Leão

Contemplativo

Maduro o fruto cheira
alto e longe
feito grito no vento

Uma cortina de folhas
mostra esconde
sua forma sua cor

E a gente nem desconfia
até o imperceptível
é sugestão de sabor

Wilson Guanais

Desterro

Quero
o teu verso
à mingua,
teus fragmentos
de infinitos,
a dilacerante
melancolia
de tuas marés
em tácito
silêncio.
Quero
a navalha
do teu desejo,
na minha carne viva,
em brasa ardendo.
Óbvio
ou absurdo,
náufrago de mim,
eu te quero
inteiro.
Pois,
onde faltas,
eu transbordo
e onde deserto,
tu me habitas.

Míriam Monteiro

A casa das palmeiras

A casa das palmeiras paira
sobre os teus olhos:
tem a essência do mesmo amor.
Como as tardes daquela vida,
como os crepúsculos daquela história.
O lugar onde cresce a tua imaginação
tem o sentido da vida.
A minha vida vem do teu sangue.
Dele cresço para o universo
e do universo regresso com estrelas.

Juan Pomponio

Ecos do silêncio

solos de guitarra flamenca
morrem no ar
sementes regadas a rum
germinam no solo

do lado de cá do espelho
a bela adormecida
embebeda-se de sonhos
e dedilha alucinadamente
o fio da navalha

Euza Noronha